OS SALMOS E SUA INTERPRETAÇÃO.

 

INTRODUÇÃO.

Os salmos são representativos da fé do Antigo Testamento, orada ou cantada. Muitos são os motivos, em parte pessoais, em parte litúrgicos, de sua formação; eles diferem quanto à forma e quanto ao conteúdo. Mas se concentram sempre em Deus, pressentido na história da salvação e na salvação por Ele prometida. Depois de reunidos, eles constituíram, principalmente na comunidade pós-exílica, o livro dos cânticos, das cerimônias litúrgicas e foram aplicados à nova situação. Eles são vivos como a palavra de Deus e não só testemunham a devoção existente no Antigo Testamento, como também sustentam a vida de oração da Igreja no eterno "hoje" da atualização da história da salvação.

"A Antiguidade Clássica punha discursos na boca dos homens célebres, a bíblica punha salmos : indicação preciosa para o conhecimento da alma de Israel". É uma reflexão de A. Gelin, que chama a atenção para um fato literário importante. Poemas-orações, chamados salmos, se encontram não só no saltério, mas em todas as categorias dos livros bíblicos.

Colocados nos lábios de homens famosos, eles mostram a importância que a oração, especialmente a de louvor, e a de súplica, tinha na vida dos heróis da história, na proclamação, ou na leitura litúrgica da palavra dos profetas e na reflexão dos sábios.

O LIVRO DOS SALMOS.

O povo de Iahweh proclamou e lançou por escrito as antigas tradições da história da salvação, conservou na sua memória as palavras dos seus profetas e compreendeu o seu destino. Louvou a Deus no culto, expôs a sua situação a Ele, Senhor da Aliança, e projetou nesta prece as aspirações de cada um. Muitos destes textos de oração nos foram conservados no saltério do Antigo Testamento.

Na Bíblia o texto original do livro dos Salmos tem o título de "louvoures" ( tehllim) e compreende 150 cânticos religiosos distribuídos em cinco "livros". O termo "salmo", em uso corrente atualmente, deriva da tradução grega da Bíblia do Antigo Testamento ( a tradução dos Setenta ) e reproduz uma expressão hebraíca que, segundo o seu significado originário, deveria ser traduzido por "cântico acompanhado de instrumentos musicais" (mizmor). Esta palavra passará a indicar quase que exclusivamente os cânticos de saltério.

O termo em questão se encontra 57 vezes nos títulos dos salmos, como "mizmor ledawid" no Sl 3. O significado de toda a fórmula não é claro porque a preposição hebraíca, aqui usada, faz supor pertinência a um ciclo, como se sabe do ugarítico. Mas do exame do saltério se conclui que os títulos querem fornecer algum dado sobre o autor, naturalmente no sentido da tradição judaíca tardia.

Entretanto, o saltério não contém todos os cânticos conhecidos. Conhecemos o cântico da profetisa Débora ( Jz 5 ), o da irmã de Moisés ( Ex 15,21 ), o cântaico do Mar Vermelho ( Ex 15,1-19 ), o cântico de Davi pela morte de Saul e Jônatas ( 2Sm 1,19-27 ) e o hino da sabedoria ( Pr 8 ). Também fora da Bíblia foram transmitidos cânticos religiosos de Israel - em tempos mais recentes - como os salmos de Salomão e os cânticos de agradecimento de Qumran.

COMPILAÇÃO E FORMAÇÃO DO SALTÉRIO.

Ao iniciar-se a compilação do atual livro de Salmos, já existiam coleções parciais de salmos. Elas foram em parte colocadas sob o nome de David, dos levitas cantores Asaf e Coré. Vários textos usados na viagem a Jerusalém foram reunidos no livro dos cânticos de peregrinação. Alguns salmos se distinguem pelo uso quase exclusivo do nome divino de Eloim.

A autoria dos salmos atribuídos a Davi, Asaf e outros não é questão de fé. Seria, sem dúvida alguma, um bom auxílio na interpretação dos salmos, se soubéssemos com certeza o seu autor. Na verdade o nome do autor deveria ser recordado muito raramente, e na maior parte dos casos caiu em esquecimento. Nos títulos foram aceitas muitas vezes tradições não críticas, formadas no decurso da transmissão e do uso dos textos.

Na sua atual compilação o saltério foi dividido em cinco livros, terminando cada um deles por uma doxologia. O saltério na realidade se desenvolveu a partir de várias coleções, num período de quase 600 anos.

1 - Sl 3-41(40).

O saltério de Davi é a coleção mais extensa. Com exceção do Sl 33(32) que não apresenta nenhum título, todos os outros trazem a nota - ledawid. A coleção é composta de cânticos cultuais e não-cultuais e foi idealizada como livro de piedade e de orações para uso privado. Existem muitos cânticos e lamentações individuais.

O Sl 2, foi colocado no início da coleção, evidentemente com referência a Davi. E o Sl 1, é típico de escrito sapiencial.

2 - Sl 42(41)-83(82).

É um saltério eloísta acrescido de um apêndice. Neste saltério o nome de Yahweh foi regularmente substituído pela denominação divina de Eloim. As razões para isto consistem no receio crescente que o judaísmo nascente tinha de pronunciar o nome de Deus, como também acrescentar a unicidade de Deus mediante a denominação de Eloim. O saltério eloísta consta de várias coleções parciais que apresentam indícios de sua origem ou de seu emprego dentro do culto :

2.1 - Sl 42(41)-49(48).

Salmos dos filhos de Coré. Constituíam o livro de coro desta corporação de cantores, formada depois do exílio. Em alguns dos cânticos se encontra a teologia de Sião.

2.2 - Sl 50(49);73(72)-83(82).

Salmos dos filhos de Asaf e livro de coro também de uma corporação de cantores que voltou constituída, como tal, já do exílio.

2.3 - Sl 51(50)-72(71).

Segundo saltério davídico, somente tt-67 não trazem o ledawid, e o Sl 72(71) é atribuído a Salomão. Foram compostos para fins cultuais, oportunidade em que se incluíram também alguans sdalmos não-cultuais.

3 - Sl90(89)-149(150).

Constituíam uma grande coleção na qual faltam quase inteiramente as notal litúrgicas e musicais e estranhamente muitas vezes também os nomes dos autores. É composta artificialmente de quatro sub-coleções.

3.1 - Sl 90(89)-104(103).

É caracterizado pela reunião da maior parte dos hinos monoteístas.

3.2 - Sl 108(109)-110(109);138(137)-145(144).

Constituem uma terceira coleção de salmos davídicos.

3.3 - Sl 120(119)-134(133).

É o livro dos cânticos de romaria.

3.4 - Sl 105(104)-107(106); 111(110)-114(113A); 116(115)-118(117); 135(134)-136(135); 146(145)-149(150).

São os salmos aleluiáticos. Posteriormente foram incluídos os Salmos 115,119,137.

Outros métodos de divisão são encontrados na literatura bíblica, de acordo com a intenção dos autores e seus pressupostos.

 

AUTORES E DATAÇÃO.

Os títulos nada significam objetivamente quanto aos autores e à datação do texto. Não fornecem nenhum ponto de apoio que tenha credibilidade, principalmente porque as tradições oscilam tanto no texto massorético quanto nas traduções.

Não se pode concluir que Davi tenha sido autor daqueles salmos que trazem a informação "ledawid", porque muitos dels pressupõe o templo de Jerusálem e mesmo o exílio de Babilônia.

Nas informações dos compiladores se reflete uma consciência exata de que a comunidade do pós-exílio não apenas compôs seus próprios cânticos, como também conservou e utilizou cânticos da tradição. No saltério, do mesmo modo que em nossos livros de cânticos, existe uma seleção de cânticos, que é fruto de vários séculos.

Uma parte do saltério provém seguramente de época anterior ao exílio. Isto valendo principalmente para os salmos reais e que supõem um rei israelita como personagem presente, e vale também para outros tipos de cânticos.

Uma parte bastante considerável provém da época do exílio e posterior ao exílio, quando, segundo nos mostra a obra do cronista, o canto dos salmos desempenha papel particularmente importante.

Em face das descobertas de Qumran, já não se pode pensar que eles datem da época dos Macabeus, no século II, a.C. Qualquer tentativa de datação dos salmos é mera probabilidade. Uma pesquisa comparativa dos materiais e motivos, até agora realizada somente em pequena escala, e que abrangesse todos os aspectos do AT, poderia ser de grande ajuda.

Quanto ao mais é preciso precaver-se contra uma tendência que se vai fixando no sentido de atribuir globalmente todos os salmos, ou pelo menos a sua maior parte, ao período inicial dos reis ou à época pré-exílica em geral.

 

CONTEXTO HISTÓRICO.

1. Mesopotâmia.

A existência de cânticos em Israel não é seu privilégio, no Antigo Oriente. Na Mesopotâmia o tipo sumério-babilônico dessa poesia começa em meados do terceiro milênio e estende-se até 1600 A.C. A partir de 1300 A.C. segue-se um tipo "purificado" e estruturado em cânones, cujas reminescências vão até ao tempo dos Selêucidas. Foram conservados muitos textos sacrais e religiosos, e em particular hinos, cânticos penitenciais e lamentações, e algumas poesias ligadas à vida quotidiana.

Os hinos podem ser divididos em 4 grupos :

- hinos de glorificação dos deuses ( entre estes aqueles que são formulados na primeira pessoa do singular e colocados na boca da deusa Ishtar );

- hinos de louvor ao rei ( muitas vezes um exaltado louvor de si mesmo );

- cânticos de louvor às divindades, pontilhados de expressões de bençãos e orações em favor dos reis;

- e glorificações de templos sumerianos.

Os cânticos penitenciais e de lamentações em sua maioria são liturgias sacramentais ligadas a ritos de expiação e contém lamentações contra a doença, o sofrimento, e algumas vezes uma confissão de pecados.

Desenvolveu-se um gênero literário de cântico de amor ligado ao culto, conservado em fragmentos. Este gênero pode estar relacionado com o amor entre os deuses ou com as núpcias sagradas; pode glorificar a beleza e os encantos do ser bem-amado, ou lamentar sua perda. Recentemente foram descobertos cânticos fúnebres nos quais um homem lamenta a morte do pai ou da esposa.

Os hinos e as lamentações apresentam uma estrutura literária semelhante. Cada uma das inúmeras divindades é consagrada com inúmeros termos adjetivos laudatórios. Os pedidos e agradecimentos são dirigidos às divindades, sem diferenças notáveis.

A poesia babilônica de época mais recente parece ser menos formal, tendendo a se esparramar e a cair no preciosíssimo, contribuindo para isto o acróstico, que compões um dito religioso ou o nome de um rei, mediante adjetivos laudatórios. Encontram-se versos de profunda beleza poética, que são como o eco de uma piedade pessoal e da profunda consciência da sua própria culpa, acompanhada de igual arrependimento.

Os sumerianos classificavam os seus cânticos com base na execução musical como :

- Cânticos para a lira ( cânticos de louvor );

- Cânticos para os címbalos ( cânticos às divindades );

- Cânticos longos;

- e Cânticos heróicos, dentre outros estilos.

Em tempos recentes tem se falado em outros gêneros literários como os cânticos de elevação de mãos, acompanhados de ensalmos para a libertação da doença e de um infortúnio; e o cântico de tranquilização do coração, para apaziguar a divindade enfurecida.

 

 

 

 

 

Adendum.

Orações de súplica "com a mão levantada".

É um gênero usado na literatura religiosa acádica. Os babilônios e os assírios os chamavam "shu'il-la", isto é, "prece com a mão levantada", porque elas eram recitadas com a mão direita na altura do rosto, provavelmente na posição em que se vê o rei da Babilônia, Hammurabi(1792-1750), em oração diante do deus Sol Shamash, em uma célebre tela no museu do Louvre.

Estas orações que deviam ser ditas em caso de dificuldades ou de desgraça, quando se suspeitava que estas fossem causadas por alguma culpa, eram normalmente acompanhadas de uma oferta de incenso ou de alimentos à divindade invocada, e exigiam, sem dúvida, a presença de um ministro do culto, a não ser que a pessoa em questão soubesse de cor as orações.

Nenhum dos exemplares que chegaram até nós é anterior ao primeiro milênio A.C., mas o gênero literário é mais antigo.

 

 

 

 

A Shamash.

* o louvor da divindade

Grande Senhor, que nos céus puros

ocupas uma cela1 imponente,

Coroa rutilante dos céus

que convém à realeza;

Shamash, pastor dos povos, deus nobre,

vigia do país, senhor dos vivos,

Que fazes o fugitivo andar por um bom caminho;

Shamash, juiz dos céus e da terra,

Que manténs os Igigu2 em boa ordem,

Que dás o incenso aos grandes deuses

* o suplicante e sua oferenda

Eu, N., filho do seu deus,

Eu te chamei, Shamash, do seio dos céus puros

e em tua casa brilhante eu te procurei sem cessar;

Na mesa de refeição dos grandes deuses,

Eu invoquei teu nome,

E fiz diante de ti uma libação de cerveja fina.

* o pedido

Toma conhecimento do meu pedido3

e faz-me justiça.

Que o que fiz na minha infância

Não me atinja em minha maturidade;

Que isto se afaste três mil seiscentas léguas

do meu corpo.

Eu, N., teu servo,

Que procuro sem cessar as vias de tua grande divindade,

Como teu dia brilhante

Purifica-me.

Que eu viva, que eu seja salvo.

* a ação de graças

E que eu proclame com a minha boca os teus altos feitos,

Que eu cante os teus louvores!

1 - santuário. 2 - os grandes deuses celestes. 3 - tradução duvidosa.

 

 

2.Egito.

Pouco foi conservado da poesia lírica egípcia, visto que suas características permaneceram veladas para nós, porque a maneira de pronunciá-la e o seu ritmo não foram conservados. Sabe-se que a poesia lírica era baseada na sonoridade das palavras e sua forma interior repousava na sintonização das palavras entre si.

Originariamente se procurava para cada objeto da experiência uma forma de expressão que fixava o seu conteúdo essencial e que foi nessa forma que se inspirou pouco a pouco a maneira de expressar as idéias, os sentimentos da alma e as disposições íntimas. No Reino Novo, surge uma poesia que não parte do objeto, mas do sujeito da experiência.

O gênero literário mais importante é o hino dirigido às divindades ou aos reis. O hino deriva-se da atividade cultual e começa com uma forma litânica, por atribuir à divindade os lugares, os sítios sagrados e os objetos cultuais que foram palco de determinado acontecimento mítico, de modo que esse tipo de hino na origem constava apenas de enumerações. Progressivamente foram acrescentando-se na Mesopotâmia, adjetivos de louvor. Também as invocações às coroas reais se acham ligadas ao culto, e de modo muito particular o cântico matinal com o qual se saudava a divindade quando se entrava pela manhã no templo, como também o rei, no palácio, ao despertar.

Surgiram outros hinos onde são relatados os mitos inter-relacionados, ou se encontram aqueles tons que chegam até o coração como no hino a Amon, o qual descreve o deus como criador do mundo e de todos os viventes, com sua figura resplandecente e seus feitos míticos. São sobretudo os hinos dedicados ao sol, entre os quais o hino a Amenófis IV, que se contam entre os textos poeticamente mais precioso da literatura egípcia.

O hino a respeito do rei era calcado nos hinos aos deuses, porque os costumes da corte exigiam que ao rei só se podia dirigir por meio de um hino. Os numeros adjetivos laudatórios foram tirados dos hinos consagrados às divindades. Encontram-se também louvações ao poder real sob forma de louvor de si próprio ou da troca de discursos entre a divindade e o rei.

Os cânticos de lamentação e fúnebre, prescritos para o ritual funerário do culto de Osíris, dava margem a narração de mito. Certos cânticos tem relação com os gêneros literários, na medida em que eram cantados ou recitados em banquetes que se celebravam sobre os túmulos. Havia uma série de cânticos de trabalho, referentes a várias profissões, e originários de antiga época, como ainda numerosos cânticos de amor, do Reino Novo, muitas vezes encontrados em coleções.

Em muitos cânticos a escolha do tema fundamental substitui a formulação do dado da experiência por uma ligação jocosa com um acontecimento do momento, servindo-se da descrição de circunstâncias externas para caracterizar as disposições internas do sujeito da experiência. Desta maneira um pronunciado subjetivismo se contrapõe à objetividade da poesia antiga.

3. No restante do Oriente Antigo.

Supõe-se uma poesia lírica, embora conservada em proporções menores. A poesia popular hitita postula-se pela chamada canção do soldado que se lê em um antigo texto hitita. Além deste tipo, encontram-se hinos e orações que podem ser considerados, como criações literárias propriamente ditas e que muitas vezes se destacam pela interioridade e pela profundeza de idéias. Em um dos hinos dedicado ao deus-sol percebe-se a presença de um modelo babilônico.

Entre os cananeus há cânticos cultuais e de outros gêneros, embora até o presente momento pouco se tenha encontrado entre os textos ugaríticos. É provável que os hinos, cânticos de lamentações e sacrificiais devam figurar em primeira linha. Um ritual estabelecido para um dia de sacrifícios penitenciais e de expiação a serem celebrados por ocasião de infortúnio político, mostra que estes cânaticos eram utilizados.

De modo geral pode-se admitir a existência segura de uma linha poética comum para todo o âmbito cananeu ou sírio-palestinense, havendo poucas diferenças, em razão da situação geográfica, da diversidade de épocas e das várias influências estrangeiras.

4. A poesia israelítica.

A poesia lírica israelita cresceu no rico solo da poesia lírica do Antigo Oriente e, o que não é menos significativo, no solo da poesia cananéia.

Chamou-se especial atenção para o paralelismo entre os cânticos de lamentação mesopotâmicos e os salmos de lamentação hebraícos, entro o hino de Amenófis IV em louvor ao Sol e o Sl 104(105), bem como entre a poesia cananéia e o Sl 29(28). É provável que tenha havido alguma influência da religião cananéia sobre o conteúdo da poesia dos salmos do Antigo Testamento, embora tenha prevalicedo a fé javista e a concepção típicamente israelita de Deus e da existência.

As características dos cânticos do A.T. e dos gêneros literários são resumidos com Hempel, afirmando que elas refletem três momentos como sejam :

- a progressiva interiorização religiosa, que substitui os bens deste mundo por bens puramente religiosos e sobretudo o perdão dos pecados;

- a superação do ritual mágico e da destinação mágica dos próprios cânticos dedicados a Deus, superação que vê Iahweh agindo no sofrimento humano, e não mais um exército de demônios e de feiticeiros;

- a concentração religiosa de todas as afirmações acerca do mundo ultraterreno exclusivamente sobre a figura de Iahweh enquanto Deus do povo e Deus dos indivíduos.

É quase impossível fazer uma distinção entre cânticos profanos e cânticos religiosos (cultuais). Certos cânticos que se relacionam com os aspectos da vida diária podem estar tão impregnados de espírito religioso quanto aqueles que se destinam ao culto. O que mais interessa é conhecer a diferença entre os cânticos que se relacionam com os acontecimentos da vida da comunidade ou dos indivíduos, e que brotaram desses acontecimentos ou se destinavam a eles, em virtude da função, e os cânticos que foram concebidos como poesia culta para determinados ouvintes, e cuja função se esgota no "concerto".

 

O SITZ IM LEBEN DOS SALMOS.

As pesquisas de Gunkel substituíram as antigas tentativas de dividir os salmos sob o ponto de vista do conteúdo, agrupando-os de acordo com as características formais comuns.

Discutiu-se muitas vezes a questão acerca das relações dos gêneros literários dos salmos e cada um dos salmos que foram transmitidos, com o culto. Admitiu-se muitas vezes a existência de uma ação cultual abrangente, à qual se atribuem os salmos em sua totalidade, deixando-se de lado a interpretação histórica ou escatológica, principalmente com a tese de Mowinckel a respeito da festa de entronização de Iahweh ( Psalmenstudien II ), seguido por Schmidt e continuada pelos pesquisadores escandinavos, que colocam decisivamente o princípio cultual em primeiro plano. Weiser também se aproxima desta concepção com a tese do "culto da festa da Aliança".

A explicação dada por Mowinckel a respeito da função do salmo no interior do culto, parte da constatação de que, do ponto de vista da história das formas, os salmos não somente não derivam da antiga poesia cultual, como também, com raras exceções, são verdadeiros salmos cultuais que foram compostos para o culto e utilizados no culto.

Isto significa que eles não foram compostos a partir de uma determinada ocasião ou em função dela, mas para uso regular; implica que os cânticos individuais, p. ex.,contituem simplesmente formulários cultuais, ou também que outros salmos tornam presentes para o culto as chamadas tradições da história da salvação.

Por este aspecto, os gêneros literários dos salmos tiveram seu Sitz im Leben ( "contexto vital" ) no culto. Entretanto, não se pode admitir para todos os gêneros um ato cultual abrangente, mas antes diversos tipos de celebrações cultuais. Tampouco, não se pode pensar em vinculação permanente, certos gêneros possivelmente se desligaram do culto e se tornaram autônomos.

Outras possibilidades estariam associadas a certos eventos, como os salmos que derivam de determinados acontecimentos históricos ocorridos uma única vez, como o Sl 137(136), que lembra o exílio; a interpretação pessoal que surge espontaneamente no Sl 51(50) e no Sl 73(72).

Os salmos também refletem os múltiplos aspectos assumidos pela vida religiosa de Israel no decorrer dos séculos. Esse livro, cuja composição se estende por cerca de oito séculos, é necessariamente diversificado. Por isso, não podemos referir a um único tipo de liturgia. Igualmente sua relação com o culto é diversificada e nuançada. O saltério está estretamente ligado ao culto; e a multiplicidade bem como a diversidade dos laços que o ligam ao santuário, não são suas menores riquezas.

 

 

 

 

A FORMA POÉTICA DOS SALMOS.

Os salmos vêm de um período no qual já existiam a poesia e as sua leis, o que ajudava na expressão do pensamento, de modo que os salmistas puderam usá-las e de fato as usaram.

Habituados à forma estilística ocidental, onde a poesia tem métrica, rima e estrofes, a impressão que os salmos nos dão é de coisa informe e esquisita, porque não correspondem à nossa forma usual.

Na verdade os cântaicos de Israel têm ritmo, mas diferente e mais livre que a métrica ocidental. Disto não se tem conhecimento abalizado em função das várias modificações redacionais, realizadas pelos copistas.

Em vez de rima, a salmódia hebraíca tem uma rima de pensamento, que recebeu a denominação técnica de paralelismo de membros. Isto significa que a poesia exprime um pensamento em dois versos sucessivos, mudando os termos e a forma. No paralelismo de membros que é a correspondência harmônica de pensamentos, distingue-se o paralelismo por identidade de significados ( sinonímico ), por contraste ( antitético ), por complementação ( sintético ) e por intensificação ( climático ).

Há que se observar que, como o demonstram testemunhos literários de Canaã, Egito e da poesia sumério-acádica, os salmistas seguem as tradições do seu tempo. Nas obras poéticas da antiga Ugarit cananéia já vemos as regras poéticas seguidas pelos salmistas.

 

OS GÊNEROS LITERÁRIOS DOS SALMOS.

Sem sombra de dúvida, que uma parte dos salmos tem a sua "situação existencial"( Sitz im Leben ) na devoção pessoal. O semita é menos individualista que o ocidental. Era homem da estirpe e da comunidade. Do ponto de vista da religião vivia e orava como membro da Aliança com Deus. Por isso a origem dos salmos está muito mais ligada na reunião da comunidade diante de Deus no templo e na sinagoga, do que na piedade pessoal.

As grandes festas nas quais se celebrava a memória de importantes intervenções de Deus na história da salvação e as peripécias do povo na guerra e nas angústias, como também nas necessidades e as experiências de salvação de cada um eram ocasião e estímulo para compor e cantar salmos. Assim nos gêneros literários dos salmos se encontram composições coletivas e individuais.

Na oração de Israel há sempre uma súplica e um louvor, pois todo colóquio com Deus se realiza segundo estes dois modos fundamentais. Eles são a fonte primária da qual se originam os salmos. Estas foram as formas primitivas de oração que caracterizaram e plasmaram os cânticos do povo de Iahweh.

Salmos de lamentação e imprecação.

Como criatura o homem encontra motivos diversos para se lamentar e orar diante de Deus. Por isso o gênero de lamentação individual e coletiva contitui a base de todo o saltério. O povo apresenta as suas lamentações ao seu Deus no santuário. A ocasião é proporcionada pelos diversos sofrimentos decorridos de calamidades naturais e por inimizades de vizinhos. Invoca-se Iahweh, o Deus da Aliança, expõe-se a Ele a angústia sem esconder as próprias culpas e pede-se auxílio com palavras insistentes.

O indivíduo expõe a Deus os sofrimentos que a vida lhe traz em grande número. Ele O assedia, confiante desafoga perante Ele o seu coração, descreve em forma narrativa a sua dor, protesta inocência ou confessa o seu pecado, implora e suplica que o mal seja afastado. Descreve a sua angústia com imagens ou a exprime de forma convencional, de modo que permanece indistinto o que o oprime.

Há também o pedido de proteção contra o inimigo ( Sl 17 ). A figura deste inimigo ainda é uma incógnita para nós, de modo que existem muitas interpretações. Às vezes é a devoção do fiel que é motivo de hostilidade, outras vezes é a doença. Provavelmente a mencionada hostilidade é o resultado da simplificação da lei de retribuição daquele tempo, segundo a qual, qualquer doença era considerada como culpa ou punição.

É comum o pedido de auxílio contra a acusação injusta do tribunal ( Sl 94 ). A corrupção na administração da justiça levava os suplicantes a se refugiarem em Deus ( Am 2,6-8 ). Também, as culpas pessoais movem os suplicantes a implorar a misericórdia divina ( Sl 38 ).

Salmos de ação de graças.

Agradecimento e invocação muitas vezes estão tão interligados que é difícil discernir se o cântico foi recitado antes ou depois do atendimento. Em muitos casos, a oração de súplica foi retomada em um hino de ação de graças para mostrar com quanto poder Iahweh salvou. Esta salvação devia ser manifestada em uma "grande assembléia" ( Sl 22,26 ). Grande parte dos salmos é de louvor, evitou-se a palavra "agradecimento".

Qual a distinção entre louvor e agradecimento? No louvor nós nos voltamos inteiramente para ou outro, no agradecimento, vemos as coisas do nosso ponto de vista. O louvor emana da liberdade e do entusiasmo espontâneo. Louvor e agradecimento pressupões duas estruturas diferentes na natureza humana. É o espaço caracterizado pela comunhão que exige o louvor.

Para o homem do AT a precedência do louvor sobre o agradecimento provém da grandeza da idéia de Deus. Mesmo que o homem receba alguma coisa do seu Deus, ele o diz olhando não para o seu eu, mas para Deus e para a sua grandeza, que se manifesta também na sua bondade. Assim, o louvor é simultaneamente agradecimento.

Os hinos.

O número de hinos chega a quase vinte e cinco. Proclamam o louvor a Deus falando do seu poder na história da salvação e descrevendo a sua obra na criação. Exaltam a sua glória e o seu poder ( Sl 66 ). Neles Israel louva Iahweh durante a celebração do culto.

O hino é o cântico sacro por excelência, seja porque no seu conteúdo não há outro tema que não seja a majestade divina, seja porque tanto a sua forma como a sua recitação são adequadas a um objeto tão sublime.

Os salmos da realeza de Iahweh.

Pensou-se que fossem cânticos para uma festa de entronização de Iahweh, à semelhança das festas pagãs, ou que o seu fundo fosse uma festa em honra ao rei de Sião. Faltam contudo, os fundamentos bíblicos destas festas e destas conclusões peregrinas. Em todo caso, nestes salmos Israel proclamou a soberania de Deus com um grito : "O Senhor é rei". ( Sl47;93;96-99).

Os salmos da realeza de Iahweh alimentaram a devoção do povo especialmente no período posterior à cisão do reino de Davi. A desilusão causada pelos reis terrenos levou o povo a uma fé ainda mais profunda na realeza de Deus. Sem dúvida estes salmos fomentaram também a esperança em um reino escatológico universal de Deus.

Os salmos do reino de Sião.

É muito importante situar a "situação existencial" e o gênero destes salmos ( 2;72;110 ) porque eles encerram uma nota messiânica. Sem dúvida o rei está no centro de uma celebração litúrgica. A função histórico-salvífica se esclarece com os salmos 89 e 132. Eles referem ao reino os seguintes importantes conceitos : uma "visão" profética; a referência a Davi e à Aliança feita com ele; o rei é um "ungido", um "primogênito"; ele chama a Deus de seu "pai".

Estes salmos são ecos dos acontecimentos e narrativas em 2Sm 7, onde se diz através do profeta Natã que Davi teria a assegurada a estabilidade do seu trono e da sua dinastia, se o rei se considerar "filho de Deus" e agir de acordo. A realeza de Davi se tornava, com isso, uma nova depositária da Aliança de Deus e, no quadro desta promessa, recebia uma missão salvífica. Davi se tornou o rei ideal, e por isso, do rei do tempo escatológico da salvação. Esses hinos ao rei de Sião pertencem, ao ritual real de Israel. A posse do reino se dava mediante a unção e a entronização ( 1Rs 1,34s ). O rei se tornava então "filho adotivo" de Iahweh.

Em cada entronização o novo rei era considerado em relação com a plenitude da promessa, porque delas derivava a sua autoridade. A sua pessoa era como um elemento de ligação, que já trazia em si a possibilidade de introduzir imediatamente a "plenitude dos tempos". Para este mode de ver, o rei histórico de Sião se apresentava nas vestes do rei da salvação escatológica e do soberano do reino de Deus em sua plena configuração salvífica. Assim, o conceito de "ungido", que era título comum dos reis, passou a designar aquele que, como rei do tempo escatológico, devia concretizar o ideal, realizar a plenitude e levar tudo a cumprimento. Esta evolução da idéia para o "Messias" se completou só nos salmos de Salomão ( 17;18 ).

Salmos sapienciais.

É um gênero tardio. Os autores destes cânticos se apresentam como mestres; objeto de seu ensinamento é a sabedoria, cujo primeiro significado é o comportamento. Por isso a palavra e as diretrizes do Deus da Aliança são, também nos salmos, a base e a finalidade do ensino e da reflexão sapiencial.

Estes salmos antecipam as bem-aventuranças do sermão da montanha e esclarecem o sentido salvífico da relação com Deus ( Sl 1;119 ). Uma variante introdutória desta fórmula é "Como é bom..." ( Sl 133 ).

Alguns salmos sapienciais têm como conteúdo principal a palavra e a instrução de Deus em forma de "tora" ( Sl 1;19;119 ). Este conceito une a palavra de Deus com a revelação de sua vontade; ele não deve, por isso, ser entendido como cântico somente de "lei".

Os salmistas louvam a palavra de Deus na tora porque, ela lhes torna possível uma vida irreprensível. Para eles a tora era "uma luz para os pés" e uma "luz no caminho". Ela não era portanto, para o salmista, como foi mais tarde para o farisaísmo, a possibilidade de fazer ações que merecessem a recompensa, mas uma graça. Por isso, aqui ainda não se encontra a falsa devoção legalista, que apareceu mais tarde; ao contrário, ela foi acolhida como graça e esta graça, como lei de compromisso.

Outros gêneros literários podem ser encontrados pelos pesquisadores, segundo a sua hipótese de trabalho literária. Isto levaria a conduzir a especificação de outros tipos de análise, mostrando estes gêneros, tais como as teofanias, os salmos de congratulações, os salmos de peregrinação e de procissão, dentre outros.

 

 

A TEOLOGIA DOS SALMOS.

 

O conjunto da reflexão teológica dos salmos não se distingue da reflexão dos sacerdotes, dos profetas, dos sábios e dos historiadores. O saltério é um reflexo da reflexão desenvolvida fora dele. Se o culto muitas vezes aproveita temas nascidos e desenvolvidos em outros ambientes, ele é também o lugar no qual brotam intuições que amadurecem antes de serem aproveitadas fora dele. A teologia dos salmos é uma teologia comum, mas a sua abordagem pode ser feita de modo particular.

O saltério mostra as "camadas" sucessivas de reflexão que se acumularam no decorrer dos séculos, por isso a sua teologia conserva os vestígios de sua evolução, de sua bem longa história.

A teologia aparece aqui não como um tratado sapiencial, ou proclamação profética, nos quais os sábios e profetas "falam de Deus", mas através das frases da oração que os fiéis dizem "falando a Deus". Esta forma diferente dá ao pensamento uma nota especial.

Os salmistas dizem Deus, à sua maneira, muitas vezes sob tensão, repetindo aos que estão em volta o diálogo que tiveram com Deus, e convidando-os para um diálogo semelhante. Segundo E. Beaucamp, "o que o caracteriza é ser um livro litúrgico, e o que ele tem de original está em relação com a sua função cultual. Considerado em seu conjunto, o saltério não tem mensagem. Ele introduz num diálogo entre Deus e o homem, diálogo cuja natureza constitui a base teológica do livro".

1 - A confiança no Deus da história.

O Deus dos salmos é o Deus que faz a história e é percebido por Israel na história. Os salmos cantam Yahweh como o Deus criador do universo, cujo trono está no céu. É a história da salvação que caracteriza Deus. Por isso os grandes temas histórico-salvíficos apaarecem com muita frequência e se exprimem na forma de louvor ou de ensinamento, particularmente os salmos históricos. O salmo 105 exalta longamente a Deus, que usou de benignidade com os patriarcas.

A libertação do Egito e a peregrinação através do deserto são celebradas como ações de Deus ( Sl 78,105,135 ). A terra prometida é exaltada como dom do Deus da Aliança ( Sl 44; 47; 78; 80; 105 ). A comunidade recorda da graça da Aliança e da fidelidade de Iahweh, atrás da qual está o acontecimento do Sinai; ela experimenta de novo, como no monte de Deus, a manifestação da sua glória ( Sl 18; 50 ) e proclama sua fidelidade à sua vontade revelada e à sua lei ( Sl 19; 119 ). Nos cânticos de Sião é mencionado de modo particular o lugar que o Senhor escolheu e presenteou com sua presença salvífica. Aí, no seu templo, eram executados em sua honra os cânticos do saltério.

Nos salmos Israel louvou o Deus da história da salvação, as suas ações e os dons salvíficos, incluindo o rei davídico. A salvação experimentada repetidamente infunde a confiança em Deus e dá assim a força para governar a si mesmo ( Sl 145; 146 ) e de cantar a Deus um hino sempre novo ( Sl 96; 98 ).

 

2 - A fé, a oração e a dor.

O apego à vida não impedia que se ignorasse o enigma da dor. Este enigma da humanidade se torna urgente para o homem de fé, para o qual acima do mundo e da sua confusão existe um guia e um Pai. Lançar luz sobre o problema da dor significa, não só eliminar o absurdo que ameaça a vida humana, mas também oferecer uma "justificação" para a fé em Deus. Por isso os salmos que se ocupam deste tema são chamados de salmos de teodicéia. Estas questões são muitas vezes tratadas nos salmos. ( Sl 37; 49; 73 ).

A resposta é diversificada. No início os olhos do povo se voltavam para a posse da "terra que mana leite e mel". Na sua pré-história Israel conservara idéias da vida depois da morte, mas a revelação inicial não tomara posição. Entretanto, havia sido revelado que Deus retribuía com justiça. O Sl 37 procura resolver o problema da dor explicando que a felicidade do ímpio é só aparente, ao passo que o justo, depois de uma breve prova, chegará ao pleno gozo na terra prometida.

A explicação não foi satisfatória, e o Sl 73 procura outra solução - o salmista se persuade que a comunhão de Aliança com Deus é eterna e indissolúvel, se o homem não a destruir com o pecado. Por isso, a morte já não tem importância, visto que Deus o "acolhe na glória".

Esta descoberta do salmista é uma verdadeira consolação, embora os detalhes do destino do homem depois da morte continuem desconhecidos para ele : ainda não se fala nem de imortalidade nem de ressurreição.

 

3 - O pecado e o arrependimento.

A verdade da justiça de Deus pertencia ao patrimônio da revelação claramente conhecido, assim a recompensa esperada para a vida piedosa era a felicidade na terra. Onde havia sofrimento, concluía-se por uma culpa precedente e, como consequência, por um castigo divino.

O homem piedoso, pelo sofrimento, é levado a arrepender-se e a pedir perdão. Isto é ilustrado nos sete salmos penitenciais - Sl 6; 32; 38; 51; 102; 130; 143. Entretanto, este conjunto não tem correlação entre si.

A sua classificação deve-se a iniciativa cristã de Orígenes, que fala de "sete vias para se obter o perdão dos pecados". A sua escolha é acaso, já que pelas suas idéias, eles quase não se distinguem dos outros e não correspondem a nenhum sistema.

O que prevalece nos salmos penitenciais, não é a idéia de expiação, mas o pedido de libertação da dor. Nos Sl 51 e130, há uma evolução de pensamento quase a nível neo-testamentário. Aqui o que move aquele que ora, não é a dor como consequência do pecado, mas a dor causada pela existência do pecado.

Se nestes salmos se manifesta o limite desta fase da evolução da revelação anticotestamentária, aparecem então um autêntico conhecimento da relação do agir humano com Deus e uma verdadeira aspiração pelo restabelecimento da ordem e da comunhão com Deus.

4 - O mal e o zelo pelos interesses de Deus.

Exige-se do cristão uma capacidade de compreensão especial para ler ou orar com os salmos 35; 69; 109 e 137 :

"Ó Babilônia devastadora, bravo aquele que te der o merecido, por aquilo que nos fizeste!

Bravo o que tomar os teus filhinhos e os esmagar contra uma pedar" ( Sl 137,8 ).

Observa-se atentamente que os salmistas desejam aos seus adversários o que os mesmos querem fazer ou fizeram realmente. Eles se baseiam na conhecida norma legal : "Vida por vida, olho por olho, dente por dente" ( Ex 21,23 ).

Esta norma procede do direito do tempo e se encontra literalmente também no código de Hamurabi ( 1800 a.C. ). Trata-se de uma instrução aos juízes para ajudá-los a superar o arbítrio da vingança do sangue derramado, por meio da determinaç~sao do castigo proporcional.

O princípio não só diz que deve haver uma retribuição - mas põe também um limite : pela perda de um dente o castigo não deve ultrapassar o valor de um dente. Dificilmente se poderia explicar com mais clareza ao homem simples a correspondência entre culpa e castigo, do que deste modo concreto, baseado na equação "tanto-quanto".

Os que oravam aplicavam o princípio a si mesmos, quando se sabiam culpados, como testemunham os salmos 7 e 137. O autor deste último salmo prefere que a sua mão se recuse a servi-lo a que ele se esqueça da cidade santa.

Seria falso ver nestes salmos algum princípio de hostilidade pessoal. Eles não são salmos de vingança ou maldição, mas orações de um zelo, que se opõe ao mal por amor a Deus e aos seus interesses. O salmo 139 mostra que os salmistas acreditavam que, amando a Deus, deviam odiar o pecador como inimigo de Deus.

5 - Justiça e salvação.

Deus é justo, ele é todo justiça. Assim proclamam os salmos e o repetem. A justiça de Deus tem a dimensão do mundo que está todo cheio da sua bondade e harmonia. Esta justiça se manifesta no restabelecimento da harmonia quebrada nas relações sociais, que são muito facilmente perturbadas.

As intervenções de Deus, transformam a situação dos infelizes, assim Deus "salva" e se revela "salvador". Deus quer agir no mundo segundo a sua justiça, por isso os pobres, os infelizes, os oprimidos a Ele se dirigem, aguardando o restabelecimento do seu direito.

 

 

A CONTINUA ATUALIZAÇÃO DOS SALMOS.

O AT não caiu do céu, como se narra dos chamados livros sagrados de outras culturas. Ele se formou mediante longo e complicado processo, que a ciência pode desemaranhar, ao menos em parte. Este processo nos mostra a formação de uma fé em Deus, que não é uma posse imperturbável, mas que precisa sempre ser defendida de dificuldades internas e externas, por outro lado, justamente com essa espécie de luta ela se preserva e se consolida. É um sinal de verdadeira vitalidade.

Como se pode deduzir pelas coleções de salmos levadas a efeito em tempos diferentes, os salmos não são peças de museu, vindas de tempos antigos, mas foram usados constantemente e com a comunidade atravessaram a história. Muitos foram usados como formulários de oração, de acordo com as circunstâncias. Isto porém, significa que os salmos precisaram ser adaptados, "atualizados", e que de fato o foram.

Por exemplo, o Sl 51 vê no "espírito contrito" o verdadeiro sacrifício que agrada a Deus. Contrastanto um pouco com este pensamento, os versículos finais prometem ao Deus da Aliança novos sacrifícios prescritos pela Lei, quando o templo estiver reconstruído. Segue-se que a oração pela reconstrução de Jerusalém foi acrescentada a este salmo em tempo posterior à destruição, para adaptá-lo à nova situação. Foi feita uma adaptação de dentro para fora mediante a chamada "transposição de motivos", isto é, deu-se às palavras um conteúdo teológico novo, de acordo com o progresso do conhecimento da história da salvação.

Assim também é possível que no Sl 2, v. 2, a frase "contra o seu ungido" seja um acréscimo de tempo posterior, quando desaparecera o nexo deste salmo com a monarquia histórica, sendo ele então referido ao Messias.

Também os que traduziram o AT para o grego, se serviram da teologia do seu tempo e, introduzindo no Sl 16, o termo "corrupção" ( v. 10 ), em lugar de "túmulo", abriram o caminho para o pensamento da ressurreição que Pedro aplica a Cristo em At 2,26. Segundo J. Dupont, " ... a argumentação de Pedro se funda num pressuposto - ele não julga necessário mostrar que o texto fala da ressurreição propriamente dita; ela é admitida como evidente e sem necessidade de prova... Ele quer estabelecer que, realmente ressuscitado, Jesus é de fato, o Messias do qual fala o salmo..." (*)

Do pensamento de Pedro, igualmente de todo o NT, constatamos que a atualização dos salmos continuou no tempo cristão. Embora a cristandade primitiva tivesse hinos cristológicos próprios ( Ef 5,14; 1Tm 3,16; 6,15; 2Tm 2,11 ), a Igreja se voltou para o saltério para fazer dele o seu livro de orações. O saltério se tornou um livro sobre Cristo.

Os Pais da Igreja fazem uma leitura hermenêutica chamada "espiritual, tipológica, alegórica", o que não exclui uma exegese literal praticada nos comentários escritos; mas nas homilias esta leitura reina sozinha. Ela inspira essa exegese principalmente como prosopológica ( do grego "prosopon", personificação ), a qual tende a atribuir as diversas palavras do salmo à pessoa à qual elas parecem convir melhor. Habitualmente é a Cristo que essas palavras são referidas ( principalmente dos salmos, chamados messiânicos ), mas os comentaristas não deixam de fazer oportunas distinções.

Agostinho é a testemunha mais célebre da exegese cristológica dos salmos. Ele resolve com um senso teológico muito profundo a dificuldade hermenêutica proveniente do fato de certas frases sálmicas não poderem ser atribuídas a Cristo, filho de Deus, de modo apropriado. Se essas palavras não podem vir da pessoa de Jesus, provêm do seu Corpo. Na "Enarratio in Ps 85", ele observa que Cristo é "um só Deus com o Pai, um só homem com os homens...Ele ora por nós, ora em nós, é orado por nós...A nossa oração se dirige, pois, a ele...nós a dizemos com ele, e ele a diz conosco".

O QUE VEM A SER A "INTERPRETAÇÃO CRISTÃ" DOS SALMOS ?

L. Monloubou, no seu trabalho "Os Salmos", a respeito de sua interpretação e sua natureza, o que vale para todo o AT, dentre outras soluções descreve aquela de P. Grelot, para esta questão.

"A Escritura tem por objetivo único o mistério de Cristo enquanto ele é o mistério-de-Deus-com-os-homens. Os fiéis do AT já viviam desse mistério, mas o conhecimento que tinham dele era incompleto, incoativo. A comemoração da saída do Egito e a celebração do rito pascal, enriquecendo continuamente o conhecimento do "Deus dos Pais", iniciavam, ao mesmo tempo, no conhecimento de Cristo e de seu mistério; iniciavam, mas sem o conhecimento total.

A questão que se põe é como os cristãos, que tem acesso ao pleno conhecimento de Jesus, podem encontrar luzes em textos de autores cujo conhecimento desse mistério era incompleto? Proposta assim, a questão roça o absurdo, e a resposta parece evidente : os salmos não acrescentam nada ao Evangelho, e a leitura deste é suficiente.

A realidade, entretanto, é mais complexa ! Porque, se os cristãos têm acesso ao pleno conhecimento de Cristo, não dispõem ainda deste conhecimento acabado!"

O conhecimento que os salmistas tinham do mistério de Deus revelado mais tarde em Jesus é evidentemente menor do que o que está ao alcance dos cristãos. Mas, mesmo assim esse conhecimento era profundo ao ponto de escreverem frases capazes de instruir os cristãos.

Se quisermos precisar mais a maneira pela qual os salmos enriquecem a compreensão do Novo Testamento, devemos distinguir dois dados :

- as fórmulas que exprimem alguns aspectos do mistério;

- as realidades que significam antecipadamente conteúdo.

Fórmulas antecipadas da mensagem evangélica.

1 - Essas fórmulas falam do dom de Deus; são metáforas da graça. Yahweh é o Pastor, a Luz...Elas lembram a situação existencial do fiel que não tem falta de nada porque a Providência divina o conduz, vela sobre ele, e ele experimenta a alegria espiritual onde encontra a presença de Deus.

2 - Essas fórmulas falam da justificação. O salmo canta a felicidade do homem perdoado; segundo Paulo, felizes aqueles que acolhem pela fé a justificação de Deus. O salmo canta o juízo de Deus falando da situação do homem injusto. (?*)

3 - Essas fórmulas falam do mistério da paixão. Os salmos "mostram Jesus fazendo sua a oração dos justos sofredores, dando-lhe uma plenitude de sentido que nenhum cristão pode desprezar". (?*)

4 - Essas fórmulas falam do culto "em espírito e verdade". Através das frases dos salmos, os cristãos aprendem a se expressar diante de Deus, tão bem ou melhor que qualquer homem já o tenha feito.

Realidades significativas do mistério futuro.

A realeza. O papel do rei de Israel como mediador (?*), é esboçado por Jesus. A descrição que alguns salmos fazem da realeza do monarca de Jerusalém (?*) pode ser facilmente transposta para a realeza de Jesus Cristo. O Judaísmo já fazia uma leitura messiânica de alguns salmos.

Adão, origem do homem. O Sl 8 faz uma meditação sobre o homem, filho de Adão, revestido pelo Criador de esplendor real. Essa representação, indiferente ao estado pecador e de sofrimento do homem, tem sentido somente em relação a Cristo; nele a humanidade reencontra a glória e a autoridade das origens. O salmo celebra a glória de Cristo homem e da humanidade regenerada por ele.

Jerusalém. É o sinal da unidade do povo reunido em torno do seu rei, Jerusalém também é a cidade do Templo, sinal da presença de Deus no meio do seu povo. (?*)

(?*) Indica a nossa incerteza quanto a interpretação, segundo o ponto de vista exposto.

 

 

 

 

SÃO OS SALMOS PALAVRA DE DEUS?

 

A tradição cristã considera o AT como "palavra de Deus". A expressão é genérica; trata-se na realidade de uma multiplicidade de "palavras" : a palavra da Aliança, a palavra profética, "palavras históricas", "palavras sapienciais". As "palavras" são reunidas e acrescentadas aos livros santos, à "Escritura", que é "palavra de Deus".

No começo a palavra de Deus está na boca de um homem, em forma "humana", e é ao mesmo tempo revelação de Deus e do homem diante de Deus. Agora entra outra palavra", que parece puramente humana, e que trata da vida cotidiana. Mesmo esta dimensão humana, singela e simples, tem seu lugar no plano de Deus. Por isso esse tipo de palavra é plenamente válido e se torna digno de ser acolhido no todo da Escritura.

Uma vez reconhecida como "Escritura", a palavra passa a exercer um a dinâmica própria e requer "comentários", alguns dos quais são também aceitos como palavra de Deus, p. ex., Crônicas.

A dinâmica da palavra se exerce por isso em duas dimensões - de um lado tende a ampliar-se, do outro, a estabilizar-se. Ela se desenvolve pelo uso e pela aplicação e, no entanto, quer ser preservada com veneração. Ela se incorpora em novos contextos históricos ou literários, mas põe-se em guarda contra falsificações. Esta tensão da palavra de Deus é uma dinâmica, que pouco a pouco passa a exigir os meios da própria conservação - recordação, reconhecimento oficial, escritura, reunião oficial em livros.

A palavra do AT chegou até nós em forma escrita, mas é inegável que muitos textos existiram primeiro na forma oral e nela foram transmitidos. Assim os autores mais recentes usam em suas obras um material que se tinha formado na tradição oral - e igualmente na tradição escrita anterior. A escrita tem como função, a conservação de textos e sua transmissão, fixando-os com uma eficácia particular. E frequentemente, também tem uma função jurídica, qual seja a de ser um documento, um testemunho da validade da Aliança e das promessas de Yahweh. É lógico portanto, que reunindo palavras importantes, a escrita seja o seu instrumento de fixação e transmissão. A "palavra inspirada" se transforma em "Escritura".

Os salmos não se apresentam formalmente como palavra de Deus, diferentemente da palavra profética - "Assim falou o Senhor"! É antes palavra do homem, à qual Deus responde. Adquirem, sentido especial no quadro geral da palavra de Deus. Eles são palavra de Deus enquanto por eles Deus ensina o seu povo a orar. Eles são palavra autêntica, por meio da qual o povo exprime validamente - sem falsificações da doutrina ou do sentimento religioso - a sua fé, a sua gratidão e a sua recordação das ações salvíficas de Deus.

Eles são ainda o grito do homem, que quer ser ouvido por Deus e que é ouvido, que ora com as palavras que Deus lhe ensinou; finalmente, em alguns salmos, a palavra de Deus, que dá o começo, encontra um ambiente de ressonância na meditação humana. A palavra dos salmos é verdadeira porque recorda as ações divinas e as anuncia; é firme porque exprime a fé e o reconhecimento; é eficaz porque na estrutura da salvação chega realmente até Deus!!!

 

 

 

 

 

 

EM CONCLUSÃO.

 

Para o entendimento dos salmos foi importante a interpretação alegórica, que hoje não é mais possível. O método histórico-crítico tem solucionado muitos problemas, encontrados nos manuscritos que nos tem sido legados pela própria história, que nem por isso deixam ter sido inspirado pelo Deus criador dos céus, da terra, do mundo e dos que nele habitam ( Sl 24,1).

Não podemos aplicar exageradamente os salmos à vida de Jesus e da Igreja sem força-los. Não há dúvida, que os cânticos de Israel se ressentem da tensão entre protótipo e cumprimento. Se quisermos contribuir para que os salmos sejam frutíferos na vida de oração da Igreja, ao invés de procurarmos uma rígida interpretação cristológica, devemos partir da unidade da história da salvação. Na ordem salvífica estamos unidos a Israel.

Nós como o povo de Deus do AT, ainda vivemos na expectativa do cumprimento escatológico de nossa esperança de salvação que em Jesus Cristo se aproximou e começou a se realizar. Se, olhando para trás, verificamos que muitos salmos estão abertos para ele, podemos também recitá-los pensando Nele.

Antes como novo povo de Deus, estamos em condições de recitar junto com Israel as suas orações que, em última análise, pedem a vinda da glória divina. Pois não é outra coisa o que Jesus quer. Assim, também nós, cristãos, podemos orar com os salmos do AT sem forçá-los ou impor-lhes um sentido que eles não têm.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.

1 - "Palavra e Mensagem"; editor J. Schreiner; Ed. Paulinas; 1978.

2 - "Os Salmos e Outros Escritos"; L. Monloubou e outros; Ed. Paulus; 1996.

3 - "Teologia do Antigo Testamento"; C. Westermann; Ed. Paulinas; 1987.

4 - "Introdução ao Antigo Testamento"; E. Sellin e G. Fohrer; Ed. Paulinas; 1978.

5 - "Preces do Antigo Oriente"; VV.AA.;tradução Benôni Lemos; Ed. Paulinas;1985.

6 - "O Novo Dicionário da Bíblia"; editor em português R.P.Shedd; Ed. Vida Nova; prim ed., 1966.

7 - "Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã"; editor W.A. Elwell; Ed. Vida Nova; 1990.

8 - "Princípios de Interpretação Bíblica"; L. Berkhof; Juerp; 5 ed;1994.

 

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